Início > Sem categoria > Descrição (As Quatro Estações: Mimeses)

Descrição (As Quatro Estações: Mimeses)

Descrição[1]

Esta monografia versa mimeses transversais[2] entre diferentes manifestações artísticas do século XVIII e atuais, discute a criação baseada em emulações sobre um tema restrito: As Quatro Estações.

O engenho focado, analisado e discutido é o de um conjunto pictórico cuja arte, retórica e poética, teria sido capaz de representar simultaneamente um Programa Iconográfico das Quatro Estações como ciclo temporal e metáfora das fases da vida além de juntar aos elementos universais do mote a visão contemporânea sob o ponto de vista do autor.

Essa pintura é, a um só tempo, produto da mimese[3] de obras literárias e musicais e expressão de análise visual das metáforas naquelas obras. Procurou-se, na composição, a integração dos elementos formais da iconografia clássica a elementos da linguagem plástica contemporânea, tendo-se como referenciais básicos daqueles a obra de Cesare Ripa[4] e destes o trabalho de Amílcar de Castro.

A amplitude da proposta reside em ela incluir, na construção do Programa Iconográfico, aspectos transdisciplinares[5] entre poesia, a música e a pintura. A retórica do Programa é pautada pelos concertos grossos As Quatro Estações, de Antônio Vivaldi[6], como eixo, e subsidiado pelos quatro sonetos atribuídos a este mesmo autor e que teriam precedido e inspirado a composição musical, cada um como referência para uma das Estações.

Subsidiariamente ainda, mas vistos como roteiro do subtexto, foram focados os 12 sonetos da mesma autoria que o Programa Iconográfico em pauta, também intitulados As Quatro Estações, compostos a pouco mais de uma década[7], inspirados nos concertos de Vivaldi, porém sem conhecimento prévio dos seus poemas. No caso desta poesia, cada soneto se remete a um dos movimentos daqueles concertos.

Não puderam deixar de ser consideradas, tangencialmente ou ilustrativamente, inúmeras outras obras de arte sobre o tem das quatro estações, dada a extrema recorrência do mote e constante intercomunicação entre os diferentes produtos.

Portanto, este trabalho constará da apresentação e discussão focada em duas leituras contemporâneas de duas obras do século XVIII. Uma das leituras a literária, feita nos últimos anos do século passado, e outra o Programa Iconográfico, mais recente ainda, dos primeiro anos do XXI.

Como a própria proposta de Vivaldi[8], a do Programa Iconográfico teve o propósito de fazer Il Cimento dell’Armonia e dell’Invenzione, mas desta vez com diferente carga interpretativa e expressiva, o que não descartou o fato de que, de resto, em qualquer desempenho contemporâneo da música ou de qualquer outra manifestação estética ocorre o mesmo – apenas que a interpretação se deu pela expressão plástica estendida em todo um Programa Iconográfico tão complexo – ou tão simples – quanto os programas musical e literários precedentes. Programa dotado de discurso próprio, mas completamente conectado às obras emuladas.

O interesse pelo tema surgiu quando, em Vitória (ES), meados da década de 90 recém passada, uma audição de As Quatro Estações (Vivaldi) interpretada pela sinfônica local – de recursos muito modestos – sob a batuta do maestro Sergio Magnani, apresentou tanto brilho, tanto vigor, tanto frescor, dinamismo e eloqüência que causou muito vívida impressão.

O fato é que se tratava de uma peça absolutamente conhecida, um popular do erudito, e de uma orquestra com sérias limitações, em todos os aspectos. Mas o maestro Magnani teve o condão (mais que a batuta) de dirigir os músicos em interpretação singularmente boa.

A questão que inquietou, desde aquela época, foi a capacidade interpretativa, o domínio da técnica e dos recursos disponíveis para recriar uma obra de arte já tão explorada, tão difundida e de ela apresentar tanta qualidade simplesmente pelo desempenho de absoluto brilhantismo sob a direção de um artista do jaez daquele Maestro.

 


[1] Os títulos dos capítulos deste trabalho se inspiram na retórica tradicional, mas foram tomados em sentido lato. Descrição, aqui emulado apenas o sentido de descriptio, sem a amplitude de κ-φρασις, cujo sentido completo se expressa pelo termo exposição. Demonstração será empregado adiante no sentido de demonstratìo, sem necessária referência a καλον ou αισρον. Mimese será empregado como referência às fontes que emularei. Retórica, elocução e disposição serão termos empregados no sentido retórico próprio.

[2] Vide transversalidade p. 36.

[3] Mimese em retórica: figura em que o orador, usando discurso direto, imita outrem, na voz, no estilo ou nos gestos; literatura: recriação, na obra literária, da realidade, a partir dos preceitos platônicos, segundo os quais o artista, ao dar forma à matéria, imita o mundo das Idéias [É em Aristóteles, na Poética (XXI-128), que se encontra a primeira teorização acerca desse procedimento da arte; no entanto, para este filósofo, a mimese seria a imitação da vida interior dos homens, suas paixões, seu caráter, seu comportamento (idem, II e III)]; literatura: a partir do Classicismo (s. XV), princípio que orientou os artistas quinhentistas e seiscentistas que acreditavam ter a arte greco-latina qualidades superiores, devendo por isso ser imitada. Houaiss.

[4] Ripa, 1593.

[5] Vide Transdisciplinaridade p. 19.

[6] Vivaldi, 1725.

[7] In Athayde, 2001.

[8] Vivaldi, 1725.

CategoriasSem categoria Tags:
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. Nenhum trackbacks ainda.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.